quinta-feira, 3 de julho de 2008

O Tempo e O Ritmo



Cito trecho do Livro "A Cidade"*, de Ana Fani A. Carlos:


"A música 'Sinal Fechado' de Paulinho da Viola, expressa bem a questão do tempo no cotidiano dos habitantes da cidade.

_Olá, como vai?
_Eu vou indo e você, tudo bem?
_Tudo bem, eu vou indo, correndo. Pegar meu lugar no futuro, e você?
_Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranqüilo, quem sabe?
_Quanto tempo...
_Pois é, quanto tempo...Me perdoe a pressa.É a alma dos nossos negócios...
_Qual, não tem de que. Eu também só ando a cem.
_Quando é que você telefona?Precisamos nos ver por aí.
_Pra semana, prometo, talvez nos vejamos, quem sabe?
_Quanto tempo...
_Pois é, quanto tempo...Tanta coisa que eu tinha a dizer mas eu sumi na poeira das ruas
_Eu também tenho algo a dizer mas me foge a lembrança
_Por favor, telefone, eu preciso beber alguma coisa rapidamente pra semana...
_O sinal...Eu procuro você...
_Vai abrir!!!
_Vai abrir!!!
_Eu prometo, não esqueço, não esqueço
_Por favor, não esqueça
_Adeus...
_Adeus...

O Sinal dá a idéia do tempo e do entendimento sobre o tempo. O semáforo é o símbolo da cidade de hoje, do seu ritmo febricitante, dos signos que emitem ordem. De um tempo social diferencial construído por relações produtivistas. O decurso de tempo entre o 'verde-amarelo-vermelho' marca o tempo da conversa, do relacionamento com o outro. Impõe o corre-corre, subtraindo do tempo a vida, no cotidiano do cidadão da grande cidade. O tempo passa a mediar a vida das pessoas, do seu relacionamento com o outro, uma relação coisificada, mediada pelo dinheiro e pela necessidade de ganhá-lo. 'TIME IS MONEY'.
O ritmo da música dá-nos a sensação do 'ritmo da vida' e as pessoas se relacionam pelo tempo de duração da mudança do 'verde-amarelo-vermelho'.
O ritmo da cidade, esse tempo-duração, marcade tal modo a vida das pessoas que estas perdem a identificação com o lugar e com as outras pessoas. A duração é determinada por um tempo que tem a dimensão de produzir-se social e historicamente, diferente do tempo biológico que é determinado pela natureza.
Na realidade, essa noção de tempo, que permeia a vida de relações, alude à situação do homem no mundo moderno, conflituosa e contraditória."


*Carlos, Ana Fani Alessandri. A Cidade. São Paulo: Contexto, 2007.

2 comentários:

Carolina Vasconcelos disse...

O tempo do sem�foro � realmente miser�vel. Ningu�m nunca parece tranquilo parado no sinal vermelho.
Ningu�m procura olhar pro lado a fim de presentear o pr�ximo com um "boa-dia" ou sequer um olhar. Quando se olha pro lado, simplesmente "havia tanta coisa a dizer, mas faltam agora as palavras". Dentro de um carro somos apenas m�quinas com um modelo, cor e n�mero de s�rie espec�fico.
Em S�o Paulo, o "tempo do sinal" atualmente � bem superior do que fora algum dia. L� � bem f�cil se ter uma conversa de v�rias horas com um velho amigo... Basta ter a sorte de parar ao lado de um alguem especial e que n�o tenha nenhum assaltante por perto de olho nos motorista "dando sopa" de papinho com os vidros abertos!

Danielle disse...

Vamos tirar os carros da rua, todo mundo andando a pé, com transporte público ou de bike.
Vamos parar para conversar com quem está do lado. Aliás que tal começar com um educado "bom dia" e um sorriso. Aposto, toda mãe falou para dizer "bom dia" as pessoas. E não vai fazer mal nenhum em falar com um sorriso.
Hum! Seria tudo isso uma utopia? Uma loucura? Nem eu sei mais.